segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pedaços de um reencontro


Um

Custava acreditar que estava, novamente, diante de alguém como ele. Não era, mas era o mesmo.
O mesmo olhar, profundo. O mesmo humor abafado. A mesma reclusão. Irresistível!
Não era mais adolescente, tinha perícia. Tornara-se especialista nele. Estudara muito, atenta. Decorara gestos, expressões, reconhecia o andar.
Empenho em vão? Seria aquele o mesmo?
Não diria sim nem não. Não sabia. Só reagia igual, gelo no estômago, tremor nas mãos.
Não era mais adolescente e aquilo... Aquilo era coisa de adolescente!
Passara do tempo de se esconder, envergonhar-se de suas ideias. Seria diferente: agiria, gostasse ele ou não; diria o que pensa, quisesse ouvir ou não.
E queria?
Deu-se conta de seu desvario. Parada diante dele, divagando, como se a quisesse. Talvez quisesse. Provavelmente não. Mas então não seria o mesmo.


Dois


Sentara ao seu lado já ciente da situação ridícula a que se expunha. Costas tão eretas e respiração tão pausada que não passariam por natural. Mas eram. Ao lado dele, eram.
Fora assim sempre, não mudaria.
Sozinhos, respirações tornando-se ofegantes, quebrando o silêncio. O momento perfeito.
A mão pousada na mesa, fingindo distração, não enganava, queria um toque.
A mão na coxa ansiava proximidade do corpo alheio.
O prenúncio de um toque casual arrepiava-lhe a espinha; um toque intencional, paralisava.
Queriam proximidade. Os olhares fixos na TV sabiam ser o estopim, caso se encontrassem. Um encontro e cederiam.
Mas não se encontraram.
Passos alheios na sala, relaxaram e moveram as mãos. Estavam seguros. Escaparam mais uma vez.
Privaram-se, uma vez mais, não do desejo, da saciedade.
Viveriam assim, em suspenso, até rebentarem as defesas.
Elas não rebentariam nunca.


Três


Deitada, satisfeita, olhos fixos no espelho que refletira seu prazer.
Observava as curvas já um tanto flácidas, os cabelos despenteados, maquiagem borrada. Linda. Admirava através da fumaça num completo voyeurismo. O corpo ainda latejava, satisfeito.
Enfim as mãos não haviam se contido, tocaram a pela mais macia com o desejo há tempos reprimido, contido, quisera sufocado...
Não fora. Uma fagulha e irrompera.
Estavam como queriam estar, frouxos, olhando-se, mudos. E seguiriam cada um para sua vida.
Restariam beijos trocados, respirações compassadas, carícias lascivas, impudicas. A cadência perfeita. O prazer sem igual.
Roupas no chão, maquiagem borrada. Já não havia espelho, não havia nada.

(Texto: Cecília França)

Obs: Costumo publicar em meu blog apenas texto de minha autoria, mas este conto é especial, de uma pessoa que promete ser colaboradora sempre que quiser compartilhar suas criações conosco. É claro que esse Espaço está Aberto à você, Cecília França, e toda sua maestria com as palavras.

2 comentários:

C. Forasteira disse...

Olá, minha querida, obrigada pelas palavras carinhosas! É uma honra publicar meus escritos em seu blog. Espero repetir com certa constância.
Grande beijo, Cecília.

C. Forasteira disse...

Andréa,
deixei recado aqui esses dias e não sei por que cargas d´água não apareceu!
Obrigada pelo espaço e pelas palavras. Sempre que tiver algo que imagino que valha a pena lhe envio.
Um grande beijo,
Cecília.